FELIPE FERNANDES

SOBRE O LONGO CAMINHO DE FELIPE FERNANDES ATÉ A PRÓPRIA VOZ

Durante boa parte da carreira, Felipe Fernandes foi a pessoa que outros músicos procuravam quando ouviam um som na cabeça, mas não sabiam como nomeá-lo. Ele entrou no mundo da música muito cedo, como instrumentista, começando a tocar aos dez anos de idade, sem imaginar que aquilo um dia viraria profissão. Para ele, era simplesmente o que o salvou de ser um adolescente revoltado. Essa dedicação precoce e despretensiosa é o motor discreto de tudo que veio depois: anos como guitarrista e cantor de grupos como o Bloco Sargento Pimenta e o Bailão, uma carreira de produção sólida o bastante para render encomendas de cinema e televisão e, eventualmente, um repertório inteiro que ele entregava a outras pessoas em vez de guardar para si.

Sua entrada na produção musical, ele explica, aconteceu quase por acaso: ao gravar o disco de sua primeira banda, ele queria sons e texturas específicas que já tinha na cabeça, mas não sabia como traduzi-los para o técnico de gravação. Então, aprendeu a construí-los sozinho. Esse instinto, ouvir a coisa pronta antes de ela existir, é provavelmente o que o tornou valioso para tantos artistas ao longo dos anos. Entre seus créditos como compositor estão as trilhas do longa “Mãe Só Há Uma”, de Anna Muylaert, e do documentário “Seleção Brasileira, Paixão de um Povo”, da HBO. Em 2023, ele venceu o prêmio de Melhor Música no Fashion Film Festival Milão, uma carreira que, para a maioria dos músicos de estúdio, já seria motivo de orgulho.

Só que, perto da pandemia, algo mudou. Depois de anos como acompanhante de outros artistas e à frente do Sargento Pimenta, ele entendeu que era hora de focar em si mesmo. Foi nesse período que começou a trabalhar nas canções que se tornariam seu primeiro disco. O resultado, lançado em duas partes a partir de maio de 2025, é “Dois. Um título que já é, por si só, uma piada interna: “Dois” para um álbum de estreia, seu primeiro, uma confusão proposital da qual talvez só ele ache graça.

As nove faixas de “Dois” não soam como um produtor mostrando repertório técnico, e sim como alguém finalmente falando sem cliente na sala. A faixa de abertura, “Samba Elegia”, já dá o tom: uma elegia normalmente é escrita para algo ou alguém que morreu, então a música carrega uma carga de drama sem cair no exagero: um drama presente, mas não excessivo. Esse é o equilíbrio do disco como um todo: dor de cotovelo sem melodrama, confissão sem espetáculo. Quem já ouviu aponta um leque de referências surpreendentemente amplo: ecos de St. Vincent, Beck e Sufjan Stevens dividem espaço com Leonard Cohen, Nick Drake e Jeff Buckley, enquanto “Recoleta” é um bolero com ares pop e a penúltima faixa, “A Poesia”, é um choro tradicional que caberia bem num disco de Paulinho da Viola ou Lupicínio Rodrigues. As letras, tiradas dos escombros de relacionamentos recentes, são descritas como diretas, sem floreios, sem medo de colocar o dedo na ferida.

O que torna Felipe F. interessante não é só ter feito um disco bom; é a estranheza quase arquitetônica de ser o cara que passa uma década traduzindo o som dos outros e descobre, então, que tem um som próprio. Ele parece consciente dessa esquisitice. Tendo feito o álbum inteiramente a seu próprio modo, ele já cogitou que terminá-lo pode devolver-lhe o apetite de produzir outros artistas. Ou não. Ele diz gostar dessa versatilidade da música: um dia como cantor e compositor, três meses depois fazendo trilha de filme, sem nunca abandonar a composição de canções e deixando o tempo decidir qual frente vai tomar a dianteira. Essa recusa em resolver a tensão entre produtor e artista, entre bastidor e palco, é o ponto mais interessante nele. É esse o fio que uma reportagem deveria seguir em vez de tentar fechar a questão.

diretor de arte ISMAEL  FONSECA

fotografia PEDRO PODESTÁ

styling ISMAEL FONSECA + LUIZ AGULHA

beleza AMBER AVELINO

talento FELIPE FERNANDES

agência NO TITLE MGT

agradecimento especial à LINA GOMES