JOSÉ CARLOS VILAR
Tem obras que parecem desafiar o próprio material de que são feitas. É um pouco essa a sensação ao entrar em contato com o trabalho de José Carlos Vilar. O ferro, que normalmente carrega uma ideia de peso, rigidez e permanência, aparece quase no sentido oposto: leve, aberto, atravessado pelo espaço e, em alguns momentos, próximo de um desenho feito no ar.
Na exposição apresentada pela Herança Cultural, em São Paulo, com curadoria de Agnaldo Farias, essa relação fica ainda mais evidente. As esculturas ocupam a galeria sem necessariamente preenchê-la. Pelo contrário, muitas delas parecem depender justamente do vazio. As estruturas de ferro deixam o olhar atravessar as obras e fazem com que parede, chão, luz e sombra também passem a fazer parte delas.
A exposição acaba mostrando muito mais do que esculturas em ferro. Mostra o que acontece quando um artista conhece tão perfeitamente uma matéria que consegue fazer com que ela pareça outra coisa. No trabalho de José Carlos Vilar, o ferro perde um pouco de sua brutalidade e passa a funcionar quase como linha e, em seguida, uma sombra.
No fim, talvez seja justamente essa contradição que fique na memória: olhar para algo tão pesado e ter a sensação de que está flutuando.
Há peças que lembram arquitetura, outras parecem organismos, casulos, ondas ou estruturas que poderiam continuar crescendo para além de onde terminam. Vilar trabalha muito nesse lugar entre o geométrico e o orgânico, sem que uma coisa anule a outra. É como se ele encontrasse movimento dentro de um material que, à primeira vista, deveria permanecer imóvel.
Talvez seja aí que o trabalho de Vilar se torne mais interessante. Existe algo muito físico no processo de dobrar, soldar, tensionar um material tão resistente, mas o resultado não parece pesado. As linhas se repetem, se curvam e criam volumes que mudam completamente conforme o ponto de vista. De frente, uma forma. De lado, outra. E quando a iluminação encontra essas estruturas é mágico, surge praticamente uma segunda obra projetada no espaço.
na galeria Herança Cultural