COMO É UM BACKSTAGE NA MILAN FASHION WEEK SENDO BRASILEIRO?

15 de outubro de 2026

Enquanto acompanhamos a SPFW, também olhamos para os brasileiros que atuam no circuito internacional da moda. Convidado pela QIFEI para integrar a equipe de direção de comunicação durante a Milan Fashion Week, Tucco Pitanga trabalhou na construção da narrativa da coleção e no relacionamento com a imprensa internacional.

Em conversa com a Aliena, o editor de moda conta como foi apresentar a identidade da marca a publicações de países como França, Alemanha e Itália, observando as diferentes leituras que uma mesma coleção pode despertar. Uma experiência que revela o trabalho de comunicação ao redor da passarela e os caminhos que levam a história de uma marca para além do desfile.

ALIENA: Como surgiu a oportunidade de trabalhar no backstage da Milan Fashion Week e qual foi sua função por lá? 

Tucco Pitanga: Tudo começou de uma maneira muito espontânea. Uma amiga estava em Milão e foi participar de um casting. Através dela, comecei a acompanhar aquele universo mais de perto e acabei descobrindo o perfil do fotógrafo envolvido no processo. Passei a acompanhar seu trabalho e as movimentações em torno daquele projeto. 

Na época, por questões pessoais, eu não imaginava que conseguiria estar em Milão. Mas algo interessante aconteceu: a própria QIFEI, marca chinesa que estava anunciando sua participação na Milan Fashion Week, encontrou meu perfil e entrou em contato diretamente comigo. Eles me enviaram uma mensagem dizendo que tinham gostado muito do meu trabalho. Meu perfil apresentava justamente minha atuação na direção de comunicação e na edição de moda, áreas nas quais desenvolvo meu olhar sobre imagem, identidade e construção de narrativas. 

Foi assim que nasceu essa conexão. O que mais me marcou foi perceber que meu trabalho estava chegando a outros lugares de maneira orgânica, despertando o interesse de uma marca internacional. Minha aproximação com o projeto veio desse reconhecimento do meu repertório profissional. E, para mim, o backstage também faz parte desse olhar: é onde conseguimos compreender como uma ideia criativa se transforma em imagem, como os diferentes elementos de uma coleção se conectam e como uma marca constrói sua narrativa para além da passarela.

A: Você lembra do momento em que caiu a ficha de que estava trabalhando ali? O que estava acontecendo? 

T: Acho que a ficha caiu antes mesmo de chegar a Milão, quando percebi que uma marca chinesa tinha encontrado meu trabalho, se identificado com o meu olhar profissional e me convidado para fazer parte daquele momento na Milan Fashion Week. O que mais me marcou foi justamente isso: entender que algo que venho construindo ao longo da minha trajetória, através da comunicação, da edição de moda e da construção de narrativas, estava atravessando fronteiras e despertando o interesse de uma marca do outro lado do mundo. 

Foi uma sensação muito especial perceber que meu trabalho estava falando por mim, chegando a lugares onde eu ainda nem imaginava estar. Mais do que o convite em si, foi o reconhecimento do meu olhar e da minha identidade profissional que tornou aquele momento tão significativo.

A: O que mais te surpreendeu nos bastidores e que quem assiste ao desfile não imagina? 

T: O que mais me surpreendeu foi perceber a quantidade de histórias e decisões que existem por trás de uma apresentação que dura apenas alguns minutos. Quem assiste ao desfile vê a coleção pronta, a beleza, o styling e toda aquela atmosfera, mas dificilmente imagina a dimensão do trabalho criativo e coletivo necessário para que tudo aconteça. 

Como diretor de comunicação e editor de moda, uma das coisas que mais me interessou foi observar como cada detalhe ajuda a construir a identidade de uma marca. Nada comunica de forma isolada. A escolha de uma imagem, a maneira como uma peça é apresentada e até a atmosfera dos bastidores fazem parte de uma narrativa maior.  Também me chamou a atenção como o backstage tem uma energia própria, uma mistura de tensão, criatividade, concentração e encontros entre profissionais de diferentes áreas e culturas. 

Acho que o público muitas vezes enxerga o desfile como o resultado final, mas, para mim, uma das partes mais interessantes acontece justamente antes da passarela. É ali que conseguimos compreender não apenas o que uma marca está apresentando, mas o que ela deseja comunicar. No fim, o que mais me marcou foi perceber que a moda não se resume ao que vemos. Existe toda uma construção de pensamento, imagem e identidade por trás de cada apresentação. 

A: Teve algum imprevisto que você precisou resolver na hora? Como lidou com ele? 

T: Em um ambiente como a Milan Fashion Week, onde tudo acontece de maneira muito intensa, os imprevistos fazem parte do processo. São muitos profissionais, diferentes demandas e decisões acontecendo ao mesmo tempo. Como minha atuação está ligada à direção de comunicação e ao trabalho como editor de moda, minha preocupação era manter a coerência da narrativa da marca, mesmo diante das mudanças e da correria dos bastidores. 

Acredito que um dos maiores desafios nesse tipo de produção é conseguir se adaptar rapidamente sem perder a essência do conceito criativo. É preciso ter sensibilidade para perceber os detalhes, mas também agilidade para encontrar soluções e entender o que realmente importa naquele momento. Para mim, trabalhar com comunicação também é saber lidar com o inesperado e encontrar maneiras de preservar a identidade e a mensagem que a marca deseja transmitir. 

A: Como foi trabalhar com uma equipe de diferentes nacionalidades? Ser brasileiro despertava alguma curiosidade?

T: Uma das coisas mais interessantes dessa experiência foi justamente a troca cultural. Estar em Milão, com uma marca chinesa e profissionais de diferentes nacionalidades, me fez perceber como a moda é capaz de conectar universos tão distintos. 

E confesso que existe um orgulho muito grande em ser brasileiro nesses espaços. Às vezes, acho que nós mesmos não temos dimensão do repertório que carregamos. O brasileiro tem uma capacidade muito particular de criar conexões, contar histórias e encontrar caminhos. Costumo brincar que já nascemos com um pouco de marketing na veia, porque aprendemos desde cedo a nos comunicar, improvisar e transformar situações em oportunidades. 

No meu caso, isso também tem muito a ver com minhas origens. Venho de uma família em que a conversa sempre teve um lugar importante. Meu avô mineiro falava muito, adorava uma boa história, e hoje percebo o quanto isso influenciou minha maneira de enxergar o mundo. Talvez minha primeira referência de comunicação tenha vindo justamente daí, muito antes de eu entender o que era trabalhar com isso. 

Estar em um ambiente internacional me fez valorizar ainda mais essa herança. Porque, no fim, comunicar também é saber ouvir, criar vínculos e fazer com que as pessoas se interessem por uma história. E acho que nós, brasileiros, temos uma habilidade muito bonita para isso. Não precisamos deixar nossa identidade na porta para ocupar espaços internacionais. É justamente ela que torna nosso olhar diferente. 

A: Tem algo da sua formação ou das experiências no Brasil que te ajudou a encontrar seu lugar ali?

T: Com certeza. Acho que tudo o que vivi e construí profissionalmente no Brasil foi fundamental para chegar a esse momento. E não falo apenas da formação técnica, mas principalmente das experiências, dos encontros e da maneira como aprendemos a olhar para o mundo. 

O Brasil é um país de contrastes, de muitas referências e de uma criatividade que nasce justamente dessa mistura. Trabalhar com moda aqui me ensinou a desenvolver um olhar mais sensível, a encontrar possibilidades onde nem sempre existem caminhos prontos e a entender que uma boa ideia não depende necessariamente de grandes estruturas, mas de repertório, identidade e intenção. 

Também acredito muito no valor das relações. Ao longo da minha trajetória, fui entendendo que saber ouvir, observar e criar conexões é tão importante quanto dominar qualquer ferramenta profissional. Quando cheguei àquele universo internacional, percebi que não precisava tentar me adaptar a uma ideia do que seria um profissional europeu de moda. Eu já tinha uma bagagem, uma história e uma maneira própria de interpretar as coisas. 

Acho que essa foi uma das percepções mais bonitas da experiência: entender que minha trajetória no Brasil não era apenas uma preparação para estar ali. Era justamente o que eu tinha de mais valioso para oferecer. 

A: Para outro brasileiro que sonha em trabalhar nesse circuito, o que você gostaria de contar que ninguém te contou antes?

T: Acho que a primeira coisa que eu diria é que o mundo da moda é muito maior do que os lugares que aprendemos a admirar. Durante muito tempo, somos levados a acreditar que precisamos estar em determinadas cidades, conhecer certas pessoas ou seguir um caminho específico para sermos reconhecidos. Mas minha experiência me mostrou que nem sempre é assim. 

No meu caso, foi uma marca chinesa que encontrou meu trabalho e me convidou para fazer parte de um momento importante em Milão. Isso me fez pensar muito sobre como as oportunidades podem surgir quando construímos uma identidade própria e temos coragem de mostrar o que fazemos. Também diria para valorizarem suas origens. Nós, brasileiros, temos um repertório cultural imenso, uma criatividade muito particular e uma capacidade de nos conectar com as pessoas que, muitas vezes, não reconhecemos em nós mesmos. Não precisamos tentar parecer europeus para fazer parte da moda internacional. 

E tem uma coisa que eu gostaria que tivessem me contado antes: nem sempre você precisa estar fisicamente em um lugar para que seu trabalho chegue até lá. Às vezes, sua imagem, suas ideias e a maneira como você se comunica já estão abrindo portas que você nem imagina. É claro que existe muito trabalho, estudo e dedicação por trás de qualquer oportunidade. Mas acredito que também precisamos aprender a confiar no nosso olhar. 

No fim, eu diria para não se preocuparem tanto em pertencer a um lugar. Preocupem-se em construir algo tão verdadeiro que o mundo tenha vontade de conhecer.