SUAS REFERÊNCIAS PODEM OCUPAR MAIS DO QUE UMA TELA

Com o avanço das tecnologias digitais impulsionado pela Terceira Revolução Industrial, os meios de comunicação passaram a integrar cada vez mais as atividades cotidianas, transformando a maneira como trabalhamos, consumimos e nos relacionamos. Essa transformação também reorganizou a produção e o consumo, contribuindo para o surgimento de novos desejos e necessidades (Harvey, D. (2000) Spaces of Hope).

Durante a pandemia, a presença das telas nas relações afetivas ganhou outra dimensão. Diante do distanciamento físico, chamadas de vídeo, mensagens e encontros virtuais tornaram-se formas de sustentar vínculos e compartilhar experiências. Seus efeitos permanecem: o ambiente digital passou a ocupar um espaço ainda maior na maneira como buscamos proximidade, mesmo quando o contato presencial voltou a ser possível.

Reprodução Instagram | Mayara Junges

Nesse cotidiano, também construímos nosso repertório visual. Salvamos fotografias, reunimos imagens em pastas, fazemos capturas de tela. Uma referência leva a outra, e o arquivo cresce. Mas a facilidade de guardar nem sempre vem acompanhada do tempo de observar. O que nos despertou interesse pode permanecer entre centenas de imagens, distante do processo que poderia provocar. As referências, porém, podem ocupar mais do que uma tela. Imprimir uma fotografia, recortar uma página ou reunir amostras de materiais permite dar presença física àquilo que chamou nossa atenção. A imagem ganha uma dimensão concreta: podemos vê-la de longe, aproximar o corpo, perceber sua escala e colocá-la em relação com o espaço ao redor.

É nesse encontro que o moodboard físico ganha força. Uma fotografia ao lado de um tecido pode revelar uma combinação inesperada. Um recorte sobreposto a outro pode sugerir uma silhueta. Uma superfície brilhante, aliada a um papel áspero, pode ajudar a definir a atmosfera de um projeto. Cor, textura, proporção e composição passam a ser experimentadas com as mãos. Montar esse conjunto exige escolhas. O espaço disponível convida a decidir o que merece permanecer, quais imagens conversam entre si e o que já não faz sentido. Ao mover, retirar e reorganizar referências, começamos a reconhecer as relações que sustentam uma ideia. O moodboard se torna uma forma de pensar enquanto fazemos.

Há também o poder da convivência. À vista, uma composição pode ser revisitada ao longo dos dias, em diferentes estados de atenção. Um detalhe aparece, uma associação amadurece, uma imagem perde importância. Quando compartilhado com outras pessoas, esse conjunto oferece um lugar concreto para apontar, discutir e construir uma direção em comum. Levar referências para fora da tela é abrir espaço para esse olhar mais demorado. É permitir que aquilo que nos inspira participe do ambiente, encontre outros materiais e acompanhe o desenvolvimento de uma criação. Na parede, sobre uma mesa ou espalhadas pelo chão, as imagens podem começar a revelar uma linguagem própria.