A
MODA
BRASILEIRA
TEM
TALENTO.

/
TEM
APOIO?

RENATA BROSINA POR ALEXANDRE BEZZI

Renata Brosina é uma das vozes mais atuantes do jornalismo de moda contemporâneo. Com uma trajetória construída entre a moda, o jornalismo e a cobertura das principais semanas de moda internacionais, ela se destaca por análises sobre o mercado de luxo, comportamento e sustentabilidade. 

Com passagens por veículos especializados e grandes redações, incluindo colaborações para a Numéro China, Numéro Brasil e Harper's Bazaar Folha de S. Paulo, ela acompanha de perto as transformações da indústria e seus bastidores.

Unindo o rigor da reportagem ao dinamismo das plataformas digitais e dos podcasts, ela construiu um olhar crítico sobre o universo fashion e os mecanismos que movimentam o setor. Nesta entrevista, fala sobre criatividade, autoria, independência editorial, a padronização da moda contemporânea e os desafios dos novos talentos brasileiros.

E antes da entrevista, ela deixa um importante recado: “O caminho de quem não se rende a bajular alguém nesse mercado é mais difícil, mas vale a pena. porque, no fim, você não deve favor à ninguém e essa liberdade dá uma paz absurda. porque é possível ser legal, profissional e justa (e fazer amizades reais) de graça.”


A.B.: Você compraria uma "briga" novamente por uma questão de autoria ou hoje pensaria duas vezes antes de apertar o botão publicar? O jornalismo de moda carece em alguns pontos de crítica e autocrítica e nem sempre a parte criticada leva isso numa boa. Ainda estamos dependentes do mercado de troca de favores?

R.B.: Tudo começa quando eu não vejo o meu trabalho como um "vamos procurar briga". Eu o vejo muito desvinculado disso, até porque a minha noção de crítica e de opinião transcende isso quando existe respeito e bagagem, quando você tem repertório. 

Porque é assim que você naturalmente consegue fortalecer uma ideia que, talvez, nem todos vão gostar, mas que faz sentido. Você precisa ter repertório para julgar as coisas. Uma das coisas mais bonitas que me fez enxergar as coisas dessa forma — e, mais uma vez, eu não tenho medo de expressar a minha opinião, seja escrevendo um texto, conversando com uma amiga ou falando com o meu filho. Somos pessoas livres, vivemos num país livre e, sobretudo, precisamos exercitar o nosso lugar de opinião dentro do que nos cabe.

Eu adoro arte, mas não a ponto de fazer uma crítica. Posso comentar sobre uma exposição com uma amiga, dizer o que gostei ou não. Mas não posso tecer uma crítica para um veículo, por exemplo.

Desde muito pequena, eu queria ser juíza. Queria estudar direito. Meu pai, que era advogado, sempre dizia: "Renata, para você poder trabalhar com isso, precisa ter opinião, ser crítica e analisar os fatos." 

Eu lia muito com ele. Aos sete ou oito anos, pegávamos o jornal para ler as colunas, exatamente a parte mais opinativa. E era tão legal porque meu pai perguntava: "O que você achou disso?" Tinha assunto que eu não fazia ideia do que lia, ele me explicava e depois perguntava o que eu achava, mesmo sabendo que eu era criança o suficiente para falar algo que fosse considerável. 

Com o tempo, essa troca com ele transformou-se de forma tão natural que nós dois chegamos a ter visões políticas muito diferentes e, mesmo assim, discutíamos a ponto de eu pensar: "Não vou deixar de falar isso por medo de magoar alguém." 

A minha vida acabou se desenhando assim. Quando decidi estudar moda, depois jornalismo, e juntei as duas coisas para falar e estudar jornalismo de moda como especialista, perguntei-me qual seria o meu próximo passo após a pós-graduação voltada para a cultura.

Foi entender que eu queria desenvolver esse lugar da opinião que me faltava, pois eu não queria ser mais uma mera executora da opinião alheia ou da informação que uma marca tinha me passado. Isso coincidiu com um período muito difícil, justamente quando me formei e as revistas mudavam estruturalmente por conta da presença digital e do surgimento das influenciadoras, o que ampliou demais o espaço do pitaco. 

Trabalhando na redação da L'Officiel, percebi que o meu trabalho era meramente observar: falar de algo porque fulano é anunciante, porque todo mundo está comentando, ou me calar para não pegar mal. Entrei numa crise enorme. Na época da psicanálise, sentia muita insegurança para escrever, porque eu não sabia me podar.

Quando saí dessa rodinha de rato e comecei a me expressar de verdade, a falar "não gostei disso", foi justamente quando criei o podcast, após pedir demissão do meu cargo. Eu não aguentava mais viver na mesmice de agradar marcas. Por mais que eu adore moda, há coleções feias e roupas malfeitas, e eu não quero ter que falar desse jeito. 

Essa obrigação me fez ver que eu queria ser livre. O podcast foi o primeiro espaço onde senti isso de verdade: faça chuva ou faça sol, não tenho chefe, o projeto é meu e tenho total liberdade. 

Percebi que esse exercício começou a melhorar naturalmente os meus textos. Deixei de me sentir engessada, resgatando o olhar crítico que comecei a desenvolver na pós-graduação - já que a faculdade de moda, iniciada aos dezessete anos, foi um acidente de percurso. 

Quando juntei moda e jornalismo, entendi que precisava exercitar o meu olhar crítico, que é o que realmente gosto. Para mim, não faz o menor sentido não poder fazer isso. Ao me afastar desse ecossistema de obrigações com anunciantes e amizades, percebi que o importante é que as pessoas entendam o meu pensamento de forma respeitosa. 

Isso reflete nas pautas que escolho. Eu opto por não escrever sobre determinados assuntos, não aceito certos personagens e não falo de fast fashion, porque não faz sentido para mim. Como não sou usuária de fast fashion, não faz sentido escrever sobre isso. Meus textos precisam refletir quem sou. 

Hoje, no fim do dia (risos), o que quero é escrever com base na bagagem que construí desde 2006, quando saí da escola e me interessei pela área, e 2007, quando entrei na faculdade. São quase vinte anos de dedicação, estudos e investimento em conhecimento. 

Por isso, quando dou a minha opinião! Faça chuva ou faça sol , o faço a partir de um lugar de quem entende do assunto. Quando escrevo uma crítica ou análise, não penso se sou amiga do PR, se o estilista gosta de mim ou se tenho peças daquela marca em casa. Se eu estivesse preocupada com isso, deveria escolher outra profissão, e não a de jornalista de moda. O que me importa é ter liberdade para pensar e escrever, sabendo que, mesmo amando marcas como Prada e Giorgio Armani, se algum dia eu precisar apontar algo negativo, farei isso, assim como já fiz com várias outras. 

Isso faz parte do jogo. Eu não posso criar laços de dependência, pois cresci nutrindo um forte senso de autossuficiência. O caminho de quem não se rende a bajular alguém nesse mercado é mais difícil, mas vale a pena. Isso porque, no fim, você não deve favor à ninguém e essa liberdade dá uma paz absurda. É possível ser legal, profissional e justa (e fazer amizades reais) de graça.

A.B.: Depois de ver tanta coisa em Paris e Milão, o que ainda te surpreende na moda brasileira? E o que continua te dando preguiça?

R.B.: A gente vê muita coisa interessante em vários lugares, mas capitais como Milão, Paris, Nova Iorque e Londres também entregam muito mais do mesmo. Esse espírito repetitivo não é uma exclusividade do Brasil, ele é global. Por outro lado, existem sempre criativos apostando na experimentação e fazendo o que acreditam. O problema é que, a longo prazo, sem um investimento financeiro consistente que banque marcas independentes de olhar autoral, esses projetos infelizmente desandam e perdem fôlego.

O que me surpreende positivamente na moda é ver nomes que se mantêm fiéis às suas convicções há décadas. Se pegarmos criadores como Yohji Yamamoto ou Rei Kawakubo, ambos persistem no que acreditam desde a sua estreia nas passarelas de Paris em 1981. O mesmo vale para Galliano: mesmo quando esteve à frente de grandes maisons, ele nunca precisou se encaixar em moldes corporativos; ele sempre manteve a sua identidade intacta, provando que a consistência criativa prevalece sobre modismos.

No cenário nacional, temos talentos brilhantes que precisam urgentemente de apoio. O mercado brasileiro muitas vezes esmaga esses jovens criadores, que focam puramente no design e não têm o perfil ou o suporte de Business People para bancar grandes eventos. O que me causa preguiça é essa postura pomposa do estilista estrela, com o ego inflado, cuja produção é pobre em substância, mas que se sustenta à base de investimentos pesados em marketing e autopromoção paga.

No fim das contas, os valores se inverteram e o produto deixou de ser o protagonista. Quando o criador volta o foco genuíno para a roupa, o ego cede espaço à autenticidade e ao verdadeiro esforço criativo. O papel do jornalismo especializado deveria ser justamente resgatar essa essência e contar histórias de quem realmente acredita no que faz, em vez de se render a narrativas de storytelling vazias que tentam camuflar a falta de substância com pura estratégia de mercado.

A.B.: A nossa moda local está criando uma identidade própria ou ainda estamos olhando demais para o que acontece lá fora para descobrir o que queremos vestir aqui? Ainda há muitas trends que não casam com a realidade climática e aquisitiva dos jovens fashionistas.

R.B.: No Brasil, quando a gente fala de moda brasileira, existem nomes muito talentosos. O que falta é apoio, sobretudo porque as marcas com muito dinheiro acabam esmagando esses jovens talentos. Muitas vezes eles não têm oportunidade, não conseguem bancar um evento grande. São pessoas que acreditam no que estão fazendo, mas não são marqueteiros, são pessoas criativas. E nem sempre o criativo consegue andar junto com os negócios.

O que me dá preguiça no Brasil é justamente essa coisa pomposa do estilista estrela, do estilista que tem um ego inflado. Não é só uma questão de crítica. Você vê que o produto é pobre, mas, ao mesmo tempo, é ele que tem dinheiro para bancar anúncio, pagar imprensa de alguma forma ou outra.

Eu acho que, se cada um focasse em fazer a própria roupa, em fazer aquilo em que realmente acredita, sem toda essa bajulação, seria muito melhor. Não só no Brasil, mas no mundo inteiro. O problema é que os valores se inverteram e o produto deixou de ser a peça principal. Quando a pessoa pensa no produto, ela se distrai tanto desse ego que a gente consegue enxergar o esforço, a autenticidade e a vontade.

O lugar do jornalista é exatamente esse: contar a história de alguém que acredita no que faz. É só olhar para trás e perceber quantos grandes estilistas precisaram da ajuda da imprensa. Citando novamente Galliano, no início, teve muito esse apoio. Ele realmente foi um nome que se destacou desde o momento em que se formou.

Acho que é justamente se arriscar fazendo o que acredita, sem usar o dinheiro do marketing para justificar uma ideia. Nas décadas de 1980 e 1990, quando esses nomes surgiram, a palavra marketing não tinha essa força toda. O impulso criativo justificava o que você estava fazendo.

Hoje, muitas vezes você vai para uma reunião de marketing e depois precisa entender como vai justificar aquilo dentro de uma narrativa. E essas narrativas muito artificiais estão querendo abraçar como uma muleta ou uma tábua de salvação para conseguir se segurar nesse mercado e virar assunto, também desfocam do principal, que é a moda, que é a roupa.


ALEXANDRE BEZZI: Quando uma marca deixa de se inspirar e começa a fazer copy e paste? Temos uma gama de pessoas criativas no meio, porém, os tempos modernos atrapalham a criatividade?

RENATA BROSINA: Acredito que o ponto central não seja buscar purismos ou esperar encontrar a mesma densidade criativa de nomes como Galliano, McQueen ou Chalayan no cenário atual. A grande questão é entender como interrogar o momento presente e compreender suas limitações.

Quando olhamos para trás, percebemos que a década de 90 foi de fato o último grande momento de forte explosão criativa, impulsionada por um contexto predominantemente offline, de muita experimentação e de transformações profundas na vestimenta que já vinham fermentando desde os anos 1980.

Com a virada para os anos 2000, o avanço do digital e a consolidação dos grandes conglomerados de luxo, o mercado passou a sufocar as mentes criativas com exigências comerciais implacáveis. Hoje, esse ritmo acelerado de coleções contínuas impõe uma demanda exaustiva.

Se analisarmos criticamente as criações de grandes marcas concorrentes, percebemos uma padronização tão acentuada que muitas coleções perdem a distinção entre si.

A grande diferença é que a moda dos anos 1990 era visceral. Ela nascia das entranhas, das vivências reais, da infância, da cultura urbana e do repertório interno de cada criador. Em contrapartida, as gerações formadas sob a influência digital muitas vezes recorrem a referências superficiais de plataformas visuais, olhando para fora em vez de olhar para dentro. Essa ausência de uma inspiração genuinamente interna acaba gerando uma perda significativa de individualidade e autenticidade na moda contemporânea.

RENATA BROSINA @RENATACBROSINA

ALEXANDRE BEZZI @BEZZICES