P'A TER UM CONFORTO

Entre cidade, identidade, moda e resistência, MC Maria Preta fala à Aliena sobre ocupar espaços, construir a própria imagem e transformar vivência em linguagem. A conversa acompanha um editorial fotografado por Geovana Paschoal, com styling de João Victor Salsano e Direção de Arte por Henrique Ferreira.

look completo DAS HAUS + DA SILVA

ALIENA: Nas imagens, você aparece ocupando espaços muito rígidos da cidade, quase como se estivesse interrompendo a ordem deles. O que significa, para você, ocupar espaços que historicamente não foram pensados para todos?

MC Maria Preta: O ato de ocupar espaços sempre fez parte da minha arte e da minha existência enquanto corpo político. É extremamente importante vermos diversidade artística acontecendo numa cidade tão cinza como São Paulo. Causa curiosidade, e só aí conseguimos mostrar que sempre estivemos aqui.

A: Existe hoje uma pressão para que artistas transformem não apenas sua música, mas também sua imagem, seu corpo e sua vida em conteúdo. Onde termina a Maria e começa a personagem pública Maria Preta?

MP: A Maria Preta não é uma personagem, mas a junção do que aprendi dentro do meu trabalho com o que aprendi enquanto pessoa física. Assim, sigo me criando. Foram muitos anos entregue ao rap de todo o meu coração até aprender a proteger minha vida pessoal e driblar minhas inseguranças de artista. Quando estou no palco, na frente da câmera, no estúdio ou na internet, tenho noção de que é o meu trabalho. Não gosto de me expor e acredito que devo usar tudo que aprendi para transmitir algo ao meu público. Já no “off”, é onde eu me cuido com os meus e sinto que posso ser vulnerável. Mas, no fim, o que seria do artista sem a história que o compõe?

look completo DA SILVA + EXCLUSIVE O’STORE

esquerda: look completo SIODUHI STUDIO

direita: look completo AFROPERIFA + DROP COMPANY + EXCLUSIVE O’STORE

A: A cidade pode ser um lugar de liberdade, mas também de vigilância e controle. Como essa contradição aparece na maneira como você vive e cria?

MP: A vivência na “quebrada” não é a mesma pra todo mundo, mas todo mundo sabe os privilégios de quem mora no centro da cidade. Tenho cada vez mais entendido como ser uma pessoa indígena em contexto urbano moldou a mim e às minhas criações. Quando mais nova, eu sonhava com a promessa de que a cidade era o alvo para ter sucesso. Hoje, sinto a problemática do apagamento e do desinteresse do poder público em olhar para pessoas que se parecem comigo. Daí a importância de seguir ocupando e resistindo! Sou a prova viva de que existem muitos caminhos que não nos ensinaram. Um deles é a arte.

A: Em algumas imagens deste editorial, você parece extremamente visível. Em outras, fumaça, óculos, tecido e movimento quase escondem sua identidade. Em uma cultura em que todos precisam ser vistos o tempo inteiro, ainda existe poder em não se mostrar completamente?

MP: Ninguém se mostra completamente. O artista sábio é aquele que sabe a hora certa de mostrar cada faceta. E, se pensar bem... todo mundo é assim.

look completo DAS HAUS + AFROPERIFA + DA SILVA + EXCLUSIVE O’STORE

esquerda: look completo JAL VIEIRA BRAND

direita: look completo DA SILVA + EXCLUSIVE O’STORE

A: Moda, música e comportamento parecem cada vez menos separados. Para você, roupa é apenas expressão estética ou também pode funcionar como linguagem política e cultural?

MP: Expressões estéticas são marcas culturais, políticas, identitárias e até mesmo espirituais. Dentro do hip hop, a moda sempre foi elemento importantíssimo, marcando gerações e criando tendências. Dentro das culturas originárias, os grafismos, por exemplo, podem servir para identificar a qual povo um parente pertence, assim preservando a memória de todo um povo. A estética nunca foi só estética para nós. Nossa forma de existir no mundo conta muito sobre quem somos.

A: A geração atual parece construir identidade a partir de muitas referências simultâneas: música, internet, moda, território, gênero e estética. Você acha que hoje somos mais livres para construir quem somos ou apenas recebemos novas formas de pressão para definir uma identidade?

MP: Existem tantas pressões estéticas e sociais que acabamos nos vendo com réguas que não são nossas, mas sempre existiram desajustados criando tendências e sendo exemplo de que a autenticidade funciona. Fora que, na quebrada, certas pressões nunca fizeram efeito. De onde eu venho, as pessoas aprendem a criar seu próprio estilo, seu jeito de ser... E, lá fora, acaba virando moda.

look completo SIODUHI STUDIO

look completo DAS HAUS + DA SILVA

direção de arte/criativa Henrique Ferreira

produção Manoela Marques

assistência de produção Leticia Santos

styling João Vitor Salsano

beleza Beatriz Portos

assistência de beleza Pietra Nazaré

fotografia Geovana Paschoal

assistência de fotografia Lucas Feltran

casting Guilherme Martins

talento Maria Preta