COMO A MAGREZA SE REINVENTOU PARA UMA NOVA GERAÇÃO?

20 de agosto de 2026

Em um setor em constante evolução, como o da moda, certos momentos da história acabam sendo lembrados como controversos. A tendência "Heroin Chic" dos anos 1990 foi um desses capítulos. O "Heroin Chic" marcou uma época que influenciou a imagem corporal e os conceitos de beleza em todo o mundo, extrapolando as passarelas e impactando as normas sociais. Tratava-se de algo que ia além de uma simples estética: era um fenômeno cultural. Caracterizada por um visual desleixado e cru, essa tendência deixou marcas profundas na indústria e no imaginário cultural, ao desafiar as normas sociais e as noções convencionais de beleza estabelecidas até então.

O "Heroin Chic" apresentava uma estética associada ao abuso de substâncias e aos seus efeitos visuais, especificamente, a imagem típica de um usuário de drogas. A tendência surgiu em contraposição aos estilos dos anos 1980, alterando a percepção de glamour da época ao buscar uma abordagem mais minimalista e crua. As modelos consideradas ícones do "Heroin Chic" exibiam características e estéticas muito específicas: um ar de indiferença, corpos extremamente magros, maçãs do rosto encovadas, pele pálida, olheiras e, sobretudo, uma aparência que remetia à doença ou fragilidade física.

Ao longo dos anos, as percepções sociais sobre padrões de beleza e imagem corporal mudaram consideravelmente. Historicamente, passamos por uma fase em que corpos atléticos e tonificados eram idealizados por serem associados à simetria e à proporção. Posteriormente, houve uma valorização de corpos mais volumosos, que transmitiam ideias de riqueza e fertilidade. Evoluindo a partir disso, a silhueta em formato de ampulheta tornou-se o padrão mais desejado, com o uso de espartilhos para realçar esse tipo físico. Pouco tempo depois, os papéis tradicionais de gênero começaram a se dissolver, e as mulheres passaram a adotar um padrão de beleza mais andrógino, refletindo uma crescente independência.

Assim como a moda, as percepções sociais de beleza e imagem corporal estão em constante transformação, sendo diretamente influenciadas por fatores culturais, históricos e midiáticos. A moda desempenha um papel fundamental e extremamente relevante na formação dessas percepções sociais. A tendência em questão passou a promover corpos não apenas magros, mas com uma magreza extrema e pouco saudável, algo rapidamente associado a uma glamourização não só das drogas, mas também da anorexia. De modo geral, mesmo com o passar dos anos, algumas preferências estéticas ligadas à era "Heroin Chic" ainda prevalecem na indústria da moda, como o uso de modelos com silhuetas mais esguias, especialmente em desfiles e editoriais de marcas de luxo. Além disso, o estilo mais andrógino persiste.

Existe ainda uma dimensão de classe nessa transformação. Quando procedimentos, tratamentos e medicamentos capazes de alterar significativamente a aparência dependem de acesso médico e financeiro, o corpo pode começar a carregar também os sinais de quem teve acesso a determinadas ferramentas. A magreza deixa de comunicar apenas disciplina. Em alguns contextos, pode comunicar possibilidade.

Mas, se alguns desses códigos permaneceram, a forma de apresentá-los mudou. A magreza contemporânea já não precisa carregar os mesmos sinais visuais do Heroin Chic. A palidez, as olheiras e a aparência de abandono deram lugar a outra narrativa: controle, acesso e otimização. Por isso, talvez seja mais interessante pensar não em uma volta do Heroin Chic, mas em uma magreza que foi re-embalada para uma geração que, em teoria, já aprendeu a desconfiar dela.

A Heroin Chic dizia: eu não me importo.
A cultura fitness dizia: eu trabalho muito pelo meu corpo.”
A nova magreza parece dizer: eu nem estava tentando.”

Hoje, ela pode aparecer acompanhada de pilates, alimentação controlada, personal trainers, dermatologia, procedimentos, tratamentos e tecnologias capazes de alterar o corpo. Nesse sentido, a magreza também passa a carregar uma dimensão de classe: não porque pertença exclusivamente a quem tem dinheiro, mas porque muitos dos recursos ligados à transformação corporal dependem de tempo, acesso e investimento.

A NOVA MAGREZA NÃO PARECE DOENTE. PARECE CARA.

A diferença está menos no corpo final e mais na história contada ao redor dele. A decadência foi substituída pelo autocontrole, a fragilidade, pela otimização. A nova magreza não precisou ressuscitar o Heroin Chic. Ela aprendeu com ele, retirou a parte mais desconfortável da narrativa e manteve aquilo que a moda nunca abandonou por completo: a capacidade de transformar o corpo em tendência.

Talvez a magreza nunca tenha realmente saído de moda.

Talvez ela apenas tenha aprendido a mudar de roupa.