ARTELLA: MÚSICA, MODA E O PRAZER DE NÃO CABER EM UMA CAIXINHA

Entre o groove, o house, a disco, a DJ e produtora de Florianópolis constrói sua identidade a partir de uma pesquisa musical sem fronteiras. Em conversa com a gente, fala sobre produção, referências, a relação entre música e moda e as descobertas que alimentam sua curiosidade dentro e fora da pista.

Existe algo em comum entre uma boa pesquisa musical e um guarda-roupa com personalidade: os dois dizem muito sobre quem somos, mas não precisam seguir uma única direção. No universo de Artella (Raquel Zanella), essa mistura acontece naturalmente. DJ e produtora de Florianópolis, ela transita entre diferentes vertentes da música eletrônica, incorpora referências de outras épocas e não parece muito interessada em limitar sua identidade a um único gênero ou estética.

Sua estreia na produção aconteceu em 2024, com o EP autoral Darwin,  assinado como Raquel Zanella. Desde então, a experiência no estúdio também passou a influenciar sua maneira de pensar as apresentações. A pesquisa musical permanece como elemento central, assim como a curiosidade por sonoridades que vão muito além dos lançamentos mais óbvios.

Com referências que passam por Kraftwerk, Talking Heads, Grace Jones e pela cena underground do house dos anos 90, Artella também enxerga a moda como parte inseparável da expressão artística. Conversamos com ela sobre criação, identidade, pesquisa e, claro, algumas músicas que mostram que a pista de dança também pode ser um ótimo desfile.

ALIENA: Você começou como DJ e depois entrou na produção em 2024. O que mudou na sua forma de pensar música quando passou a criar suas próprias faixas?

ARTELLA (R.Z.): Nossa, tudo! Para compreender profundamente a música, precisamos ter uma noção de como ela é feita. Não digo que todo DJ deve ser produtor, longe disso, mas aprender o básico sobre composição certamente expande nossa percepção do que está acontecendo quando estamos na cabine.

Hoje me sinto muito mais confortável para experimentar nas mixagens, imaginando o que eu incluiria ou retiraria de elemento sonoro se estivesse produzindo aquela track naquele momento. É interessante, divertido e abre um leque de possibilidades para construir camadas e sair um pouco do convencional.

A: Seu som transita por techno, house, disco e até referências de pós-punk. Quais artistas, discos ou cenas foram fundamentais para formar esse repertório tão diverso?

R.Z.: Citar referências é difícil, então vou falar o que me vem imediatamente à cabeça, tendo em mente que provavelmente vou deixar de fora muita coisa importante sem querer.

A base de tudo certamente é o Kraftwerk. Talvez minha segunda referência mais forte seja o Talking Heads e o próprio David Byrne. A partir daí vira bagunça! The Cure, Grace Jones, The The, Hall and Oates, CHIC, Crazy P, Cortex, Deee-Lite… Ah! Um monte de coisa!

A: Você fala em uma pesquisa musical permanente, incluindo músicas novas e descobertas de outras épocas que não receberam a atenção merecida. O que está pesquisando e ouvindo obsessivamente hoje?

R.Z.: Ando numa obsessão por pesquisar tech house dos anos 90 e do início dos anos 2000, antes de o termo virar sinônimo de música comercial. Tem muita coisa boa, como as produções de Asad Rizvi, Terry Francis, Pure Science e Steve Bug.

É o tipo de pesquisa que começo e só percebo quanto tempo passou depois de muitas abas abertas no YouTube.

A: Seus sets parecem buscar um equilíbrio entre energia e contemplação. Como você constrói essa narrativa durante uma apresentação?

R.Z.: Parece clichê, mas vem do feeling mesmo. E uma coisa não se opõe à outra. Eu diria que o ponto de equilíbrio está justamente na energia contemplativa.

Costumo me colocar no lugar da pista e imaginar o que gostaria de estar sentindo naquele momento. Todos os meus sets são compostos por músicas que eu gostaria de ouvir estando do outro lado. Claro, dentro de um espectro maleável que cada ambiente, festa e público comporta.

A: Música e moda foram feitos um para o outro? Você concorda que estilo e imagem fazem diferença quando unidos à música? Quais são seus ícones fashion?

R.Z.: Moda e música são inseparáveis. Me vem à lembrança o livro How Music Works, do David Byrne, quando ele fala sobre a escolha dos figurinos nas apresentações do Talking Heads.

No início, eles eram muito minimalistas e se apresentavam com roupas sóbrias porque não queriam chamar atenção além da música. Depois de viajar pela Ásia e se conectar com o mundo do teatro, ele percebeu que não havia problema em acrescentar um pouco de performance. Hoje, ele e os músicos da banda se apresentam com roupas coloridas e fazendo coreografias.

A escolha do que vamos vestir é consciente e sempre vai transmitir uma mensagem. Então não existe como fazer arte, música, sem de alguma maneira, mesmo que quase inconscientemente, pensar em como vamos nos portar e nos vestir diante do mundo.

Música e moda conversam em movimento, cultura e atitude. Até a escolha de não seguir determinado estilo é uma escolha de moda. Não existe como desvincular uma coisa da outra.